Celso Furtado, Brasil e Nordeste | Por Emiliano José

No momento em que se discute a nova Sudene não custa lembrar, com duas ou três palavras, a importância de Celso Furtado, que soube como poucos imaginar um Brasil republicano e democrático. Um livro editado pela Fundação Perseu Abramo, em 2000, resultado do seminário Celso Furtado e o Brasil, reúne densos depoimentos de Maria da Conceição Tavares, Juarez Guimarães, José Luís Fiori, Maria Regina Nabuco, Tânia Bacelar, Wilson Cano e Francisco de Oliveira sobre o extraordinário intelectual.

Me chamou a atenção os depoimentos de Juarez Guimarães e Tânia Bacelar. Guimarães pretende acompanhar a trajetória intelectual de Celso Furtado. Este aparecerá, corretamente, como quem pretende a superação do subdesenvolvimento por meio de um projeto nacional “que prevê a superação de nosso quadro histórico de exclusão social em um quadro de aprofundamento dos fundamentos de nossa democracia política”. Furtado emergirá, por Guimarães, como o formulador da grande síntese “de uma proposta de refundação republicana do Brasil”. Ele articula as três dimensões da República: o destino nacional, a cidadania social e a soberania popular.

O que se teria perdido em 1964 foi à possibilidade de uma refundação republicana do País. Furtado, é importante dizer, não condenava inteiramente o chamado populismo. Restava, no quadro pré-64, partir do populismo “e conduzi-lo por etapas a um regime que conciliasse a busca prioritária do desenvolvimento com critérios de distribuição social”. O autoritarismo seria muito mais danoso do que o populismo. “Mantendo a sociedade aberta” – dizia Furtado – “o populismo seria suscetível de aperfeiçoamento”.

Tânia Bacelar discute a questão regional a partir de Furtado, que afirmava que a industrialização do governo Juscelino Kubitscheck era ótima, mas era, simultaneamente, ampliadora das desigualdades regionais. A política federal não incorporava a questão regional. O problema do Nordeste não é a seca – terá a ousadia de dizer. A causa é a estrutura socioeconômica e política montada, há séculos, na região. Ou se mexe nas estruturas ou não se enfrenta a questão nordestina. Esse o diagnóstico dele. E dessa visão nasce a Sudene, batendo de frente com as oligarquias nordestinas.

O projeto de Furtado, que tinha na Sudene a mola propulsora, foi derrotado com o golpe de 64. A modernização que ocorre com a ditadura é profundamente conservadora, excludente. A questão regional perde substância, inclusive nos anos 90, com a lógica neoliberal predominando. Só agora, mais recentemente, sob o governo Lula, e aqui recolho lições de palestras recentes da própria Tânia, é que a questão regional volta a ganhar importância, em outra conjuntura e com outros contornos. E o Nordeste vem se libertando dos grilhões dos velhos coronéis. A região vai contribuindo para a refundação republicana e democrática do Brasil. Como queria Celso Furtado.

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