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QI do Berimbau

Mesmo sendo baiano da gema, acabo de comprar uma harpa. Fi-lo porque
qui-lo, como diria o inteligentíssimo mato-grossense Jânio Quadros.
Foi complicado encontrar uma harpa à venda aqui, na bendita cidade do
Salvador. Baiano não é muito chegado a essas coisas. As poucas existentes
estão em museus e, sabe-se de uma, em casa de um professor,doutor,
coordenador universitário.

Minha harpa tem quarenta e seis cordas e sete pedais e seu desenho é
semelhante àquele usado nas harpas dos Caldeus, em 600 a.C.. Tive alguma
dificuldade em contar todas as suas cordas. Confesso,escabreado, que me
confundi umas três ou quatro vezes e que foi necessária a ajuda de um
amigo, o Antônio, muito mais sagaz que eu, para a consecução da tarefa.
Apesar da passagem pela Universidade Federal da Bahia, nos idos de 70,
empaco em coisas que dizem respeito
à aritmética. A UFBA não tem culpa alguma, pois a questão é de QI.
Também pudera, acostumado ao berimbau monocórdio, não podia ser diferente.

Optei pela harpa na esperança de elevar meu QI a números estratosféricos,
seguindo uma nova teoria evolucionista que vem sendo elaborada e
desenvolvida por médicos aqui da Bahia. Nunca dantes se viu coisa igual. A
tese é a seguinte: quanto mais cordas você tocar,mais inteligente você é.
Portanto, violonista que toca violão de doze cordas é mais inteligente do
que o bandolinista que toca em oito cordas, que por sua vez é mais
inteligente do que o baixista que é tão inteligente quanto o cavaquinista,
e assim sucessivamente.

Como você já percebeu, na base da pirâmide do intelecto estão os tocadores
de berimbau.

O que me encanta nos estudos científicos é a profusão de novas e
revolucionárias idéias. Claro, pesquisa serve mesmo para isso. Pena o
Brasil ter que reformar apartamentos de reitores magníficos e sobrar pouco
recurso para as pesquisas. Com mais dinheiro poderíamos estudar a
influência da percussão no resultado dos vestibulares, por exemplo.
Bum, bum, bum, bum, bum ajuda ou atrapalha o batuqueiro a ingressar na
universidade? Se ajudar, o faz mais em medicina ou engenharia? Outra
pesquisa interessante seria relacionar curso a instrumento musical.
Para direito é melhor tocar um instrumento de sopro, clarinete, talvez.
Quer sucesso nas ciências econômicas, então toque oboé, e assim por diante.
Comprovadas estas hipóteses, melhorar-se-ia muito o desempenho dos alunos
nos exames avaliatórios, tipo ENADE e OAB.

Apenas uma coisinha me intriga quanto ao resultado de tudo isso. É que
dentre os instrumentos que conheço, o mais parecido com a harpa é o
berimbau. Na verdade o berimbau é uma harpa de corda única. É uma prova de
inteligência dos seus inventores; substituir quarenta e cinco cordas e sete
pedais por uma cabaça, uma vareta, um caxixi e uma
pedra, e tirar daí, os sons necessários para uma existência feliz é
fantástico. O berimbau é mais barato, mais leve, portátil, de fácil
manutenção e mercadologicamente mais demandado. Tirante eu ou outro insano
qualquer, ninguém compra uma harpa e leva pra casa, mas todo o mundo compra
um berimbauzinho de lembrança, não é mesmo?

Tocar berimbau não é para qualquer um. Dizem que é um dom de Deus. Extrair
de uma única corda a profusão de sons que os tocadores conseguem deve ser
mesmo obra dos deuses. Imagino um berimbau tocando os famosos e harmônicos
temas natalinos!!! Maravilha!!! Ansioso, espero o desenrolar das novas
etapas da pesquisa.

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