O vapor de Cachoeira não navega mais no mar | Por Emiliano José

Sarno cozinha bem, come bem. E é magro. E é um gentleman. E um grande companheiro. Nós nos conhecemos na prisão. Na cadeia, ele, de vez em quando, fazia pratos especiais, como seu delicioso macarrão alho e óleo. Escrevi sobre sua trajetória, dores e amores. Sobre Jurema, então sua companheira. É amizade eterna.

Foi com ele que dividi a mesa em Cachoeira, histórica Cachoeira – o vapor de Cachoeira não navega mais no mar. Na Universidade Federal do Recôncavo – UFRB. Mesa sobre 1968, que 40 anos após volta à tona. Sob a direção de Luiz Nova, que conheci na militância política, quando ele era militante do PC do B e convivemos mais tarde, ambos deputados, já final dos anos 80. Vejo-o agora respeitado professor, querido por seus alunos.
Não palestramos. Abrimos o debate de cara, sem preâmbulos. E foi muito interessante, um imenso aprendizado para nós três e, espero, para as alunas e alunos, que nos provocaram com muitas questões. E não só as políticas, não só acerca dos grandes rumos do mundo. A moçada veio, também, para os problemas existenciais que, aliás, ocuparam boa parte das mobilizações europeias, Paris de modo especial.

O professor Amílcar Baiardi passou por lá, personagem também de meus livros. Miguez, também mestre na UFRB, nos honrou com sua inteligência e com seu tino político. Ele nos chamou à discussão sobre o amor. Como éramos nós com o amor? Sarno, que chegou à política revolucionária pela poesia, podia falar do mergulho simultâneo no amor e na militância. Eu, que não cheguei pela literatura, era do território dos duros. O amor, no sentido pessoal, vai me pegar mais tarde. São vidas diversas, histórias singulares.

Aquela geração, nossa geração foi generosa – e que se exclua qualquer pretensão pessoal nessa afirmação. Ela entregou sua vida à causa revolucionária. Muitos ficaram pelo caminho, assassinados pela ditadura. Outros, como nós, seguimos adiante: a política continua essencial para mudar o mundo.

O stalinismo era presença inegável em nossa militância, mesmo que não quiséssemos. Foram décadas de impregnação. Dividíamo-nos, no campo da cultura, entre os partidários de Vandré e os de Caetano, e eram muito mais numerosos os adeptos de Vandré, sintoma de nosso conservadorismo no campo estético. Mesmo Chico Buarque não era tão admirado em 1968. A maioria de nós o considerava muito moderado.

E a queda do Muro? E o fim do socialismo real? E a idéia de ditadura do proletariado? E a esquerda? Quase recuperava ali o dito de Galeano, lá no início dos anos 90 – estamos como meninos perdidos no meio da tempestade. Até hoje revendo conceitos. A ideia da revolução armada, que surgira como revolta à linha dos partidos comunistas, foi derrotada.

As mudanças surgem hoje pelo caminho de uma lenta acumulação de forças. Busca permanente de hegemonia dos de baixo. A América Latina, que vive um dos melhores momentos de sua história, experimenta transformações impressionantes depois de quase todos os movimentos armados terem aderido ao caminho institucional. A esquerda hoje é outra – e de alguma forma, a mesma, se considerados seus objetivos de democratizar o mundo, melhorar a vida do povo, reconstruir a idéia de socialismo.

Tivemos que rever aquela ideia mítica da revolução. A perspectiva do assalto ao Palácio de Inverno. O milagre de uma transformação imediata. E nos acostumarmos com uma longa estrada. Mais Gramsci do que Lênin. Luta constante pela hegemonia, insista-se. Conquista de corações e mentes. Mais Rosa do que Stálin. Crítica profunda ao autoritarismo, sem volta. Democracia como valor universal, ao menos para mim. Rosa, em 1918: liberdade só para os nossos não é liberdade.

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