No Caribe, bem no olho do furacão da Revolução Francesa | Por Emiliano José

O século das luzes, de Alejo Carpentier, gira em torno da influência das idéias da Revolução Francesa sobre as ilhas caribenhas, Cuba incluída. Otto Maria Carpeaux dirá ser o romance hispano-americano mais admirado.

Carpentier foi buscar um personagem histórico real pouco conhecido, Victor Hugues, para transformá-lo no protagonista. Em torno dele, gravitam Carlos, Esteban e Sofia, jovens cubanos que se vêem envolvidos, cada um a seu modo, no redemoinho da revolução – do furacão da Revolução Francesa chegando ao Caribe, cavalgada por Hugues.

Carpentier nasceu em Havana, em 1904. Filho de pai francês e mãe russa, estudou música e arquitetura e dedicou-se ao jornalismo. Viveu muito tempo na França e na Venezuela. E em 1959, com a vitória da Revolução, voltou a Cuba. Morreu em 1980.

SER INTRIGANTE – Ele constrói seus personagens com esmero, com um talento singular. Ele os situa entre o final do século XVIII e o início do século XIX, entre, portanto, a Revolução Francesa e o início da Era Napoleônica. Como numa sinfonia, reúne-os de modo harmonioso, manipula-os cuidadosamente.

São complexos os seus personagens. Como a vida. Victor Hugues, em torno do qual circulam os demais, é um ser grandioso. E por grandioso deva-se entender não apenas o revolucionário intransigente e determinado que é num primeiro momento, mas um homem intrigante porque sujeito a impressionantes mutações, idas e vindas, aos ápices e às quedas e pronto sempre a renascer das cinzas quando tudo parece perdido.

E renascer renovado, outro e ele mesmo, e nem sempre fiel aos princípios que o guiaram no início de sua caminhada política. Passa da revolução à contra-revolução com facilidade. A guilhotina o acompanha e paira sempre como um espectro, propiciando o espetáculo e a tragédia das execuções. Ele pode ser o portador da boa nova da Revolução para todo o Caribe, e é, mas pode ser também o homem do Termidor e aí já no momento em que faz fortuna como decorrência do poder político – a corrupção.

Como mariposas, Carlos, Esteban e Sofia movimentam-se impulsionados pela luz de Victor Hugues, sem que, no entanto, deixem também de brilhar, dois de modo especial: Esteban e Sofia. Carlos recolhe-se à obscuridade. Esteban segue Hugues com imenso ardor revolucionário para depois, impressionado com a crueza do jogo político, com o autoritarismo e a violência de seu ídolo, tornar-se um ser amargurado, decepcionado, um cético. Era outra a revolução que ele imaginava.

Sofia segue uma trajetória semelhante à de Esteban, embora mais tarde. Casa-se, tem uma vidinha burguesa bem-sucedida, vê o marido morrer e segue atrás do grande, insuspeitado amor – Victor Hugues. Partindo de Cuba, escandalizando a todos, vai inebriar-se de paixão em Caiena, mas não demora a se chocar quando começa a acompanhar mais de perto o exercício do poder político por Hugues.

CONFLITOS – Em Sofia, cama e o espírito entram em conflito profundo. Ela se assusta, se indigna com a determinação com que Hugues, a ferro e a fogo, quer restaurar a escravidão, seguindo ordens francesas. Conhecera o outro Hugues, aquele que queria ver o Caribe tomado pelos ideais da liberdade, igualdade, fraternidade.

“Parece que todos vocês desistiram de continuar a Revolução”, dizia Sofia a Hugues, que não se abalava: “Terminamos o romance da Revolução; agora devemos começar sua História, considerando apenas o que é real e possível na aplicação de seus princípios.” Ela continuava o debate: “É muito triste começar essa história com o estabelecimento da escravidão.” Ele retrucava: “Sinto muito. Mas sou um político. E se restabelecer a escravidão é uma necessidade política, devo me dobrar a essa necessidade” – e aqui aparecia um determinado Hugues, não mais envolvido pelos ideais revolucionários da primeira hora, mas já entregue à lógica e à história napoleônicas, rendido ao pragmatismo de uma política rasteira.

Hugues é, também, o homem do progresso a qualquer preço, o edificador, que vai destruindo a natureza numa ferocidade e velocidade impressionantes. “Vou vencer a natureza desta terra”, dizia, para completar: “Erguerei estátuas e colunatas, traçarei caminhos, farei lagos de trutas até onde a vista alcance”. Sofia, que entronizara profundamente as idéias da Revolução e assimilara também uma outra noção de como se relacionar com o que hoje denominamos meio ambiente reagia, com alguma ironia: “Dez canteiros de rabanete me fariam mais feliz.”

O romance de Carpentier, de 1962, ilumina não apenas a Revolução Francesa e suas conseqüências para as ilhas caribenhas ou as decorrências do Termidor para essa região. Ele não parece querer circunscrever-se tão-somente às contradições do “século das luzes”, que convivia com as belas consignas de Liberdade, Igualdade e Fraternidade e, também, com a escravidão.

CONTRADIÇÕES – Diria que, ao tratar do fim do século XVIII e o alvorecer do século XIX, com suas contradições, ele pretende, também, com sutileza, aproximar-se, sugerir o enfrentamento dos dilemas do outro século, que viveu outras revoluções, o século XX, que conviveu, e não pacificamente, com a miséria e os ideais de liberdade. Ao menos, essa pode ser uma sugestão de leitura, um modo de recepcioná-lo.

O século XX que conheceu duas guerras mundiais, que conheceu o nazi-fascismo, toda a virulência do Império Americano, que viu florescer a Revolução Russa e viu o seu fim no início dos anos 90. O século XX que viu a maioria das revoluções serem esmagadas por suas próprias contradições. Viu a real politic suplantando, esmaecendo o brilho dos primeiros ideais de revolucionários abnegados, transmutados em reacionários.

Espíritos idealistas, que não se entregaram às chamadas evidências da política são sufocados ou excluídos, tal e qual aconteceu com Sofia e Esteban. Os que propugnaram uma relação equilibrada entre homem e natureza foram tidos como visionários. O que interessa é o progresso – um progresso que não leva em conta o porvir e que não olha para o monte de escombros que deixa para trás.

A angústia de Esteban diante do arbítrio da Revolução, a indignação de Sofia com a mudança de Hugues, que fica ao lado da contra-revolução, são, também, manifestações do mal-estar que o século XX causou a tantos que quiseram mudar o mundo.

Ao ler Carpentier de um só fôlego, e é difícil não fazê-lo, o leitor pode sair aturdido diante do caleidoscópio que emana dele. Pode até sair menos esperançoso pelo que pode intuir de ceticismo ou negativismo que este ou aquele personagem evidencie.

O leitor pode, também, no entanto, sair desse mergulho mais certo de que está ainda no percurso da Revolução Francesa, mais de 200 anos depois, sobretudo nessa América Latina de veias abertas. Ou seja, os ideais generosos daquela revolução não chegaram a essas plagas em sua inteireza.

E aí, ao final, esse leitor que ainda acaricia a esperança, preferirá Sofia e suas loucas paixões. Ela não recusou nenhuma paixão, mesmo quando tudo parecia acomodado em sua vida. Não recusou o amor vulcânico quando a ocasião se pôs. A tempestade amorosa, no entanto, não foi capaz de matar em seu espírito o ardor da Revolução. Esse leitor preferirá acreditar na possibilidade de recriar a idéia revolucionária, idéia que deve ser pensada, acompanhando Sofia, como fonte de liberdade, igualdade e fraternidade.

Compartilhe e Comente

Faça uma doação ao JGB

Redes sociais do JGB

Publicidade

Publicidade

+ Publicações >>>>>>>>>

Manchete

Colunistas e Artigos

Sobre o autor

Redação
O Jornal Grande Bahia (JGB) é um portal de notícias com sede em Feira de Santana e abrange as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador. Para enviar informações, fazer denúncias ou comunicar erros do jornal mantenha contato através do e-mail: [email protected]