Conexão Rio – Sob o signo amor | Por Christina Thedim

Ontem, dia 17 de maio de 2008, às 16:30 horas, sob as bênçãos do Criador, deu-se a passagem da incrível energia de Zélia Gattai Amado para um outro plano, certa e merecidamente superior, recebida com honras e juras de amor eterno pelo seu querido Jorge, de quem carregou orgulhosa o sobrenome durante os cinqüenta e seis anos em que estiveram casados.

Conheceram-se nos idos de 45, quando trabalhavam no movimento pela anistia dos presos políticos, e, desde esse instante, apaixonou-se perdidamente pelo homem que já admirava como escritor. Casaram-se rapidamente, e ela passou a trabalhar a seu lado, limpando seus originais e revisando seus textos. No ano seguinte vieram morar no Rio de Janeiro, em função da eleição de Jorge Amado para a Câmara Federal. Nasce, então, seu segundo filho, João Jorge.

Sim, pois antes de Jorge fora casada com Aldo Veiga e deu a luz a Luís Carlos, na cidade de São Paulo, em 1942. Filha de imigrantes italianos, lá nasceu em 02 de julho de 1916, participando na adolescência do movimento político – operário. Em 1948 o Partido Comunista, ao qual ela e Jorge pertenciam, foi declarado ilegal.

Ele perdeu o mandato e tiveram que se exilar na cidade luz, Paris. Na Sorbonne fez cursos de civilização, fonética e língua francesa. Após três anos mudaram-se para a República Tcheca, onde teve sua segunda filha, Paloma, com quem desenvolveu uma relação de grande cumplicidade. Nesse período o exercício da fotografia surgiu como conseqüência mais que natural ante seu olhar curioso em registrar toda a grandeza que via em tudo o que era vivo. Particularmente sou uma fã número 1 da fotografia, pois ela eterniza um momento e isso é fantástico!

Registrou, pois, todos os momentos significativos na vida de seu amado e célebre consorte. Em 1963, a paixão pelo Brasil, os trouxe de volta para Rio Vermelho, em Salvador, no estado da Bahia, onde, fruto de sua dedicação a fotografia, lançou o livro “Reportagem Incompleta”, uma foto-biografia de seu querido e admirado Jorge. Suas cinzas estão enterradas sob a sombra da frondosa mangueira no jardim desde sua partida em 2001, e receberão agora a companhia das cinzas de sua amada Zélia, mulher sempre pulsante, que com doçura e energia deixa-nos em busca do maior de todos os contos, que é o encontro consigo mesma, onde a essência toma novos e inimagináveis rumos, pois o que sabemos da morte é apenas o que supomos.

A casa onde viveram por tantos anos essa maravilhosa estória de amor será transformada numa Casa de Cultura que terá os nomes de Jorge e Zélia, onde suas obras estarão à disposição dos curiosos e dos que se afinarem com as suas vibrações criativas. Será o santuário de dois operários da cultura e da arte, onde suas presenças, assim como o grande amor que os uniu, será perceptível a todos os futuros ilustres visitantes.

Em 2005, Zélia recebeu o merecido título, por unanimidade, de cidadã baiana da Assembléia Legislativa, por sua evidente paixão e dedicação a Bahia e a sua cultura, exaltada em prosa e verso para a eternidade por Jorge, seu comparsa e companheiro. Uma mulher incrível, figura fantástica e luminosa que nos encantou com sua sensível presença e talento. Sim, pois era também escritora e, incentivada por Jorge, escreveu seu primeiro romance, “Anarquistas graças a Deus”, que lhe rendeu o Prêmio Paulista de Revelação Literária, no ano de 1979. Tomou gosto pela coisa, afinal, tinha bastante intimidade com o que havia de melhor nos livros do companheiro, e o dom nato só fez aflorar, pleno de maturidade e delicadeza, trazendo obras de grande beleza e riqueza cultural.

Livros publicados:
1979 – Anarquistas, Graças a Deus (memórias)
1982 – Um Chapéu Para Viagem (memórias)
1984 – Senhora Dona do Baile (memórias)
1987 – Reportagem Incompleta (memórias)
1988 – Jardim de Inverno (memórias)
1989 – Pipistrelo das Mil Cores (literatura infantil)
1991 – O Segredo da Rua 18 (literatura infantil)
1992 – Chão de Meninos (memórias)
1995 – Crônica de Uma Namorada (romance)
1999 – A Casa do Rio Vermelho (memórias)
2000 – Cittá di Roma (memórias)
2001 – Códigos de Família
2002 – Um Baiano Romântico e Sensual
Prêmios e títulos:
1979 – Prêmio Paulista de Revelação Literária
1980 – Prêmio da Associação de Imprensa
1980 – Prêmio McKeen
1980 – Troféu Dante Alighieri
1987 – Medalha Castro Alves, concedida pela Secretaria de Educação do Estado da Bahia
1988 – Troféu Avon, como destaque da área cultural
1988 – Prêmio Destaque do Ano, pelo livro Jardim de inverno
1994 – Prêmio Alejandro José Cabassa, da União Brasileira de Escritores, pelo livro de memórias Chão de meninos
2001 – eleita para a Academia Brasileira de Letras, para a cadeira 23
2001 – eleita para a Academia de Letras da Bahia e para a Academia Ilheense de Letras
Enquanto termino esse pequeno memorial em homenagem a essa beleza de mulher seu corpo é velado em Salvador, no cemitério jardim da Saudade, no bairro de Brotas e seu espírito talvez já longe se vá, a procura do que lhe for mais essencial nesse momento de transição e purificação maior. Peço aos anjos que a acompanham nessa jornada que cubram-na com toda a sorte de bênçãos e que faça uma excelente viagem de volta pra casa. Vejo-a linda, com os mesmos olhos de menina travessa, muito vivos e brilhantes, chegando feliz em sua nova morada, sendo recebida com o sorriso saudoso de Jorge, sempre amado. Momento de pura luz e esplendor merecido. Boa sorte, querida Zélia. Vai com Deus e na sua santa Paz! Sua passagem por aqui foi um exemplo de amor a Vida e Arte!
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Namastê!!!
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