68: assalto aos céus | Por Emiliano José

O passado não se entrega a nós: ele só nos envia sinais cifrados, que dão conta, misteriosamente, de seus anseios de redenção. Cada geração recebe uma escassa força messiânica para perceber esses anseios do passado. É a partir da nossa luta presente que podemos entrever a verdade das lutas que ocorreram antes. A recuperação do passado se dá na forma de recordações que cintilam num momento atual de perigo.

Estas palavras constituem um extrato de como Walter Benjamin encarava a relação com o passado e estão no livro de Leandro Konder – Walter Benjamin, o marxismo da melancolia, editado pela Campus, de 1988. E caem como uma luva para a tentativa que fazemos de recuperação sobre o significado de 1968 para a atualidade. A Universidade Federal da Bahia está promovendo uma vasta programação para analisar esse ano que nunca acaba.

Talvez ali, naquele 1968, os estudantes, particularmente eles, entenderam o que Walter Benjamin dizia na tese Sobre o conceito de história: “Em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que está sempre procurando dominá-la”. Os jovens, em boa parte do mundo ocidental, levantaram-se contra a quietude, contra as águas paradas, insubordinaram-se contra o grande mundo do capital. E é difícil pretender escudar-nos em fórmulas prontas para explicar aquela explosão.

Eram evidentes os sinais de crise para o capitalismo naquele 1968. De crise para o Império – os EUA – atolado no Vietnã, envolvido logo no início daquele ano com a ofensiva do Tet, onde se anunciava claramente a derrocada militar dos americanos, que ocorrerá alguns anos mais tarde. O mundo pretensamente organizado do capitalismo pós-guerra encontrava seus limites, não finais, evidentemente, mas limites que serão profundamente questionados por aquela juventude que pretendia assaltar os céus.

Não foi o proletariado o sujeito histórico daquele ano. A esquerda tradicional se viu perdida diante daquela turbulência. Por que não era o proletariado a se levantar? E mais: muitas vezes, o proletariado organizado, dirigido pelos partidos comunistas, criticavam duramente o aventureirismo esquerdista dos estudantes. É que os jovens caminhavam à frente do seu tempo. Queriam o impossível: radicalizavam na crítica ao capitalismo alienante, desumano, predador, produtivista, repressor.

Aquela juventude insurgia-se não apenas contra um modo de produção, mas contra um modo de vida. O capitalismo, com seu mundo mágico e monstruoso da mercadoria, invadira todas as esferas e condenava todos a uma vida insossa, para além da superexploração, desemprego, brutalidade do mundo do trabalho. Por que não lutar contra a alienação, contra a repressão sexual, por que não resistir às formas patriarcais de existência, contra as relações monogâmicas conservadoras? Aquela revolta, de natureza planetária, tinha, assim, um caráter também existencial, ao lado da óbvia contestação política ao sistema. 1968 não acabou, e eu volto a ele num próximo texto.

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