Veraneio de pobre teimoso | Por Carlos Lima

Após receber e-mail, telefonemas e vários pedidos feitos pessoalmente, estou atendendo as solicitações e divulgando crônica ou algo similar, elaborada alguns anos passados.

Chegou o verão. Verão é sinônimo de pouca roupa. Para quem não tem, não é novidade. É tempo de pouca cintura e muita gordura, pouco trabalho e muita micose, e com o verão também chegam muitos chifres. Verão é picolé de Ki-suco no palito reciclado, é milho cozido na água de torneira, e coco verde aberto pra comer a gosminha branca que mais parece… Verão é prisão de ventre de uma semana e pé inchado que não entra no tênis surrado, sem falar do bicho de pé. O ponto alto do verão é a praia! Principalmente aquela que todos os feirenses tanto conhece: Cabuçu! Como é saudável!

Os cachorros fazem cocô e as crianças pegam para fazer coleção, bonitinho. Os casais jogam frescobol, os seios pulam mais que as bolinhas e as bolinhas atingem outras bolinhas e as cabeças das velhinhas. Os jovens de prancha de surf – não sei pra que – atropelam os banhistas, que por sua vez vão jogar bola na areia e bombardeiam os que tomam banho de sol. É uma beleza, todo mundo nu de pele vermelha. Faz lembrar novela da Globo: Uga, uga, uga.

Ainda tem aqueles que acham que o melhor programa para quem vai a praia é chegar antes do sorveteiro, do vendedor de coco, de peixe e moqueca; quando o sol ainda está fraquinho. Sabe, é muito bonito ver aquelas pessoas fazendo quase uma mudança, carregando umas quinze cadeiras, duas ou três caixas de isopor, quatro guarda-sóis, raquete, bola de futebol, frango, farofa, toalha, balde, chapéu, prancha, garrafão de água – muitos pensam ser mineral – e muitas das vezes bóia de câmara de ar de pneu de carro. Ainda juram para Iemanjá que estão de férias. Não demora trinta minutos todos estão melados de bronzeador cenoura. Prontos para enterrar qualquer um na areia, principalmente a sogra, se ela caiu na besteira de acompanhá-los.

As mulheres também têm muita diversão na praia, a mais excitante é tentar encontrar os filhos, buscá-los dentro do mar, pois, só olham para o mar uma vez por ano e estão quase sempre se afogando. Caminham vários quilômetros para encontrar o outro pé de chinelo que foi esquecido pela criancinha, evitando mais uma briga familiar.

Os homens, é lógico, ficam com os encargos mais difíceis, como enterrar o cabo do guarda-sol. É verdade, não é fácil fazer o guarda-sol ficar em pé. No entanto, tudo isso não abala e não prejudica as férias. É muita felicidade, é maravilhoso é ver tanta mulher e meninas de bunda de fora, por isso mesmo sentem uma satisfação imensa quando entram no mar e podem usar as mãos fora da vista de dona encrenca. Principalmente em Cabuçu, onde a água é tão cristalina que dá para ver cardumes de latinhas de cerveja, sem contar com a flutuação de pequenos e roliços toletes que exalam um odor contagiante. A sensação é de boiar na salmoura como uma cebola em conserva.

Depois deste belo banho de mar, você abre e se deita sobre uma esteira e fica como um pedaço de bacon fritando na chapa, mas, mesmo assim, ele ainda consegue puxar um ronco, tendo nos olhos aquele óculos escuros que comprou no Feiraguai.

O dia não termina por aí. A noite chega, todo mundo volta para casa, toma banho, se não estiver faltando água, e deixa o sabonete cheio de areia, o xampu de óleo de babosa fica destampado, isso se ele conseguir chegar primeiro, pois a casa está sempre cheia de amigos, ou foi alugada em sistema de cooperativa, abriga mais quatro famílias, cada uma com dez pessoas, numa casa de três quartos, duas salas e um banheiro. Mesmo assim, ele acredita que está de férias e veraneando. Coisa de rico, não é mesmo?

Para coroar o dia, todos comem um panelaço de moqueca de peixe, joga buraco, caso não tenha falta de energia elétrica, e as crianças deixarem, participam de mais uma briguinha familiar – agora coletiva e comunitária – e vai dormir numa rede, se conseguir, ou deitar-se no chão, de valete, com outra pessoa que ele conheceu quando alugaram a casa. Também mantém a esperança de que outros não fiquem bêbados e iniciem uma festinha na porta de casa.
Com tudo isso, ele ainda diz que está de férias e sonha com o dia seguinte, espera que no dia tenha um sol seja mais forte, para repetir tudo e se queimar um pouco mais. Mesmo com as costas doendo por ter dormido no chão ou uma dor filha da puta no pescoço porque dormiu numa rede com cheiro de mofo, e a pele toda ardida pelas leves queimaduras provocadas pelo sol, ele diz que está veraneando. Coisa de rico!

Após vinte ou trinta dias, retorna para casa, estressado, cansado de noites mal dormidas, com a pele descascando, com grandes manchas de pano branco, sem contar com as feridas provocadas pelas queimaduras de água viva. Retornando ao trabalho é um verdadeiro contador de estórias, narrando as maravilhas do seu veraneio, e aparentando mais cansaço do que quando saiu para gozar as merecidas férias. “É um barato”.

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