Socialismo ou barbárie | Por Emiliano José

O livro de Mészáros desenvolve uma crítica corrosiva e atualizada do capitalismo, repondo com acentuado vigor o conceito de imperialismo, que andou meio fora de moda nos últimos anos. Esse imperialismo hegemônico global, capitaneado pelos EUA, teria entrado em sua terceira fase, a mais perigosa de todas porque seus desdobramentos podem incluir o fim da espécie humana na Terra. Trágica e verdadeira afirmação, por menos que o queiram os cândidos de plantão.

O primeiro imperialismo colonial moderno, construtor de impérios, marcou-se pela expansão de alguns países europeus em algumas partes “facilmente penetráveis do mundo”. A segunda etapa, marcada pela presença dominante da Inglaterra e por alguns outros poucos contendores, chamada por Lênin de “estágio supremo do capitalismo”, chega ao fim após o final da Segunda Guerra Mundial. E a terceira, a da supremacia absoluta dos EUA.

A crise estrutural do capitalismo – do sistema do capital, no dizer de Mészáros – trouxe o imperativo de constituir uma estrutura de comando abrangente do capital sob um “governo global” presidido pelo país globalmente dominante – desde o fim da Segunda Guerra, os EUA. Esse “governo global”, no entanto, está longe de ser pacífico, seja pela resistência oposta pelos povos do mundo, seja pelas agudas contradições interimperialistas.

Mészáros não é evasivo quanto às conseqüências da continuidade do domínio americano. “Se no século XXI ocorrer realmente o triunfalismo do ´século americano` do capital, não haverá no futuro outros séculos para a humanidade, muitos menos um milênio”.

Embora o autor não faça referências a Walter Benjamin, a visão desenvolvida por ele sobre a natureza destrutiva do capital guarda muita proximidade com a análise do notável integrante da Escola de Frankfurt. Na sua caminhada incessante para frente, na sua febre em busca do “progresso”, o capital acentua seu caráter intrinsecamente destrutivo – destruição da natureza e da humanidade.

Nessa terceira fase, o imperialismo americano é compelido a juntar sua expansão econômica com o agigantamento do complexo industrial-militar, com a expansão de seu assustador arsenal atômico. A afirmação militar de grande potência vai deixando impressionantes rastros de mortandade espalhados pelo mundo. A guerra do Iraque, a mais recente incursão, é uma demonstração disso. Um banho de sangue que não cessa.

O autor retoma Rosa Luxemburgo ao evocar “socialismo ou barbárie”. E propõe um amplo movimento progressista de massa contra o sistema do capital, fazendo uma crítica impiedosa a toda a esquerda mundial, aos partidos e aos sindicatos atualmente existentes.

A análise estrutural de Mészáros é correta, inquestionável. A visão política, no entanto, é genérica, sem profundidade, própria de um acentuado doutrinarismo e de um inconfessado voluntarismo. Guarda similitudes, nesse campo, o da política, com as análises de Robert Kurz, cujos diagnósticos sobre o capitalismo são também bastante lúcidos, mas sempre acompanhadas de um desprezo acentuado pela política, como se fosse possível enfrentar o capitalismo e suas seqüelas sem o recurso da ação política.

O mundo tem reagido a essa terceira fase do imperialismo de variadas maneiras segundo as singularidades de cada país e, muitas vezes, como decorrência da ação de muitos dos partidos de esquerda existentes, tão subestimados e criticados por Mészáros. Como exemplo, basta lembrar a onda de vitórias de partidos de esquerda em toda a América Latina, demonstração evidente da revolta dos povos contra a hegemonia americana.

Não se menospreze de modo algum as advertências sobre a natureza letal do imperialismo americano – sobretudo em razão de seu arsenal nuclear. Mas, é preciso repor – ao contrário da visão do autor – a centralidade da ação política na luta contra o sistema do capital, e não deixá-la entregue à espontaneidade de um possível, hipotético “movimento de massa radical” que se levantaria contra o gigante americano. Há que se garantir a continuidade da ação política para que essa movimento de massa ganhe consistência.

Compartilhe e Comente

Faça uma doação ao JGB

Redes sociais do JGB

Publicidade

Publicidade

+ Publicações >>>>>>>>>

Manchete

Colunistas e Artigos

Sobre o autor

Redação
O Jornal Grande Bahia (JGB) é um portal de notícias com sede em Feira de Santana e abrange as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador. Para enviar informações, fazer denúncias ou comunicar erros do jornal mantenha contato através do e-mail: [email protected]