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Imprensa e canalhice clandestina | Por Emiliano José

Um encontro inédito. Mais de quarenta jornalistas, todos vinculados à imprensa alternativa, se reuniram no sábado, 8 de março, em São Paulo, com o propósito, um tanto vago no início, de identificar os problemas da imprensa brasileira hoje e buscar caminhos para a consolidação de um discurso contra-hegemônico, capaz de fazer frente ao pensamento único praticado pela maior parte da grande mídia. Esta é uma interpretação, dentre tantas outras que a reunião pode sugerir.

Direi duas ou três palavras, sem a pretensão de resumir sistematicamente um dia inteiro de discussão. A grande mídia continua a influenciar de modo decisivo a vida brasileira, especialmente pela sua capacidade de pautar, de fixar a agenda de discussões. Essa visão perpassou grande parte das opiniões dos participantes. Não se desconhece, portanto o peso dessa mídia, que tem sempre um programa a cumprir, pautado nos fundamentos neoliberais.

Essa mídia tem unidade programática – salvo sempre as exceções, e CartaCapital sempre foi lembrada como tal – sem que necessite qualquer conspiração organizada. A unidade é temática, é ideológica, é cultural. Ela se baseia em pressupostos firmemente estabelecidos. Continuará, por exemplo, a combater o governo Lula, que ela nunca aceitou. E a unidade vai além das fronteiras nacionais. É só observar o que foi a cobertura da invasão da Colômbia ao Equador para assassinar um dirigente das FARC: Chávez, na interpretação da mídia latino-americana e brasileira, terminou como o grande culpado de tudo. Uribe, anistiado. Parece brincadeira, mas não é.

Não se deve, no entanto, acreditar que essa mídia pode tudo. Cabe dizer, sobretudo pelo fato de que ela em toda a América Latina tem atuado como um ator político, que a mídia tem sofrido derrotas de grande significado no Continente. Os exemplos das eleições na Argentina, Venezuela, Equador e Bolívia evidenciam que nem sempre o arsenal midiático muda a vontade popular. O caso da eleição presidencial de 2006 no Brasil, no entanto, talvez seja o mais emblemático – representou uma vitória da consciência popular contra a perspectiva nitidamente golpista da mídia brasileira. A velha mídia, que fez uma campanha raivosa destinada a derrotar Lula, piscou diante desse episódio.

A par do crescimento da consciência do povo brasileiro, que determinou a derrota da grande mídia nas últimas eleições, é inegável que há uma mudança considerável na estrutura produtiva de informações. O jornalismo impresso perde peso progressivamente para a comunicação que nasce do uso da Internet. As novas gerações já não se valem tanto do papel. Quase tudo para elas está no mundo virtual, eletrônico. Jornais que antes passavam de 1 milhão de exemplares por dia vendem hoje coisa de 300 mil – caso da Folha de S. Paulo. A mídia de combate, alternativa, ao menos boa parte dela, concentra-se no uso da Internet. E cumpriu um papel essencial na luta contra a manipulação grosseira da grande mídia.

As discussões giraram também, nesse encontro, em torno do financiamento das iniciativas da imprensa alternativa, que sabe muito bem do poder da grande mídia. Houve um consenso sólido em torno da crítica à exclusividade do critério mercadológico por parte do poder público. À medida que os governos, e que o governo Lula de modo particular, se amparem apenas no mercado como parâmetro para a distribuição das verbas publicitárias consolidam o que já está estabelecido na mídia. Impede-se, dessa forma, a necessária pluralidade.

A grande mídia, naturalmente, vale-se dessa política como se ela fosse a correta. A verdade, no entanto, é que essa diretriz compromete a democracia porque impede a diversidade de informações. Por que não estabelecer um percentual das verbas publicitárias destinado ao florescimento de novas iniciativas? – essa foi uma pergunta recorrente. E que deverá aparecer na audiência com Lula – os participantes da reunião decidiram que vão pedir um encontro com o presidente para expor suas idéias sobre a mídia brasileira e, também, as principais reivindicações da mídia alternativa.

Pela exigüidade de espaço, não listo todos os presentes. Lembro nomes como os de Flávio Tavares, Joaquim Palhares, Bernardo Kucinski, André Singer, Ivana Bentes, Flávio Aguiar entre outros. Destaco, no entanto, a participação de Mauro Santayana, sobre quem fui descobrir, no café da manhã, ter apenas o segundo ano primário, e que já foi mascate, camelô, locutor de alto-falante para depois tornar-se um dos melhores textos do jornalismo brasileiro. Observador atento e perspicaz, tendo convivido durante décadas com jornalistas, deixou a diplomacia de lado e produziu uma análise preciosa, unindo passado e presente de nossa mídia:

“Na imprensa brasileira, sempre existiram canalhas. E a gente os conhecia. O problema de hoje é que não é fácil identificá-los”.

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