Amores, paixões, turbulências | Por Emiliano José

Há um texto atribuído a Danielle Miterrand que me chamou a atenção de modo muito particular. Ela discute o amor. E o faz de modo surpreendente para os padrões a que nos acostumamos – ou que o senso comum nos ensinou a pensar no contexto de uma sociedade autoritariamente monogâmica. Quem entende ou pelo menos luta para compreender as variações do outro o ama realmente, dirá ela, para completar que, agindo assim, “nunca poderá dizer que foi enganada ou que jamais enganou”.

Esse texto – que na Internet aparece repetidamente como atribuído a ela – diz respeito à conhecida relação entre o presidente François Miterrand, ela e Anne Pingeot, diretora do Museu d’Orsay, esta alcunhada, como sempre ocorre, como a amante de Miterrand e mãe de Mazarine, fruto desse amor. Danielle é rigorosa na análise, amorosa. E defende sua atitude de acolher a presença de Anne e de Mazarine no enterro de seu marido – vejam vocês que as palavras têm peso: trata-se de seu marido.

E é bela a concepção do amor que ela advoga – e o faz como parte de sua existência. Ela percebeu que Miterrand a amava, mas, também, à política. Entendeu a complexidade do outro. E mais: um homem sensível pode se enamorar, se encantar com outras pessoas, sem deixar de amar a mulher com quem se casara. “Achar que fomos feitos para um único e fiel amor é hipocrisia, conformismo”. Vai mais longe: “Não somos o centro amorável do mundo do outro. É preciso aceitar, também, outros amores que passam a fazer parte desse amor como mais uma gota d’água que se incorpora ao nosso lago”.

É preciso viver sem mesquinhez, sem um sentido pequeno, lamacento, comum aos moralistas, aos caluniadores, paranóicos azedos que “teimam em sujar tudo”. Não por acaso ela se socorre, no texto, de Simone de Beauvoir – os amores contingentes e os amores essenciais. E está certa. O mundo do amor não é o da norma, embora a norma constranja, sem impedir a complexidade das relações amorosas. O texto atribuído a ela naturalmente não coloca o outro lado da moeda. E nem caberia porque trata apenas daquele específico triângulo amoroso.

O reverso da moeda seria tratar a mulher como centro – ela, a mulher casada, com um amante, isso para manter os estereótipos. As sociedades, inclusive a francesa, aceitariam com tanta tranqüilidade essa situação? E o curioso é que geralmente toda a argumentação, mesmo nesse belo texto, engrandece o masculino. As mulheres casadas também podem se encantar com outros homens. Ou não?

Outro lado ainda da mesma moeda seria a consideração de que não há estabilidade em relações – e isso é tratado de raspão por Danielle. O amante – homem, mulher – pode conturbar tudo e transformar-se de contingente em essencial. O mundo gira, sempre, inclusive no amor. E gira porque o primeiro móvel é, ou pode ser, a paixão, perigosa turbulência que assola o gênero humano, que nunca considera qualquer estabilidade. É a vida, a beleza da vida.

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