Susto, normais, anormais | Por Emiliano José

Curioso seja eu assaltado pela idéia do susto. É uma palavra bonita: susto. Cheia de imprevistos. Assusta. Outro dia falava dela, numa palestra no Ministério Público. O assunto era a imprensa e as pessoas com deficiência. O susto pode vir sozinho ou acompanhado. Pode ser um ou muitos. Pode ser uma ventania, anúncio súbito de vida. Pode ser puro assombro, acompanhado do medo. Pode vir de braços dados com quase pânico. E palavras são armas perigosas. Nós não temos noção da força que elas carregam. Nunca são proferidas impunemente.

Susto pode ser um maravilhamento, um alumbramento. Uma descoberta. Pode ser a estupefação diante da beleza. E quando a gente se assusta, às vezes queremos nos afastar. O belo às vezes também assusta. É como se recusássemos viver o que o susto prenuncia. Porque o susto quando vem dessa forma, promete oceanos menos plácidos, perigosamente belos. E receber o susto e viver suas conseqüências, também. Há esse susto, que pode propiciar o mergulho na beleza, o desfrute da descoberta das imensas, variadas possibilidades do viver. Arriscar-se diante do susto, do risco, da beleza. Guimarães Rosa: viver é arriscoso.

Mas, susto pode ser também outra coisa. Pode ser o susto diante do outro, mas aí não pelo alumbramento, pela poesia de uma descoberta. Pode ser o susto diante do diferente, daquele que não se parece comigo, do que foge dos padrões da dita ou maldita normalidade. Era desse susto principalmente que eu falava naquela palestra, para além da análise que fazia da atitude da imprensa diante das pessoas com deficiência. A nossa sociedade, a nossa normalidade, todos os dias se assusta diante de pessoas que não persigam os padrões dominantes.

Nossa sociedade tem uma herança pesada. A escravidão nos acompanhou por mais de 300 anos. E o preconceito e a discriminação que dela decorrem nos perseguem até os dias de hoje. Somos uma sociedade que se pretende branca, e que é racista. Uma sociedade também avessa aos diferentes. Que não quer ser incomodada pela presença de estranhos. Prefere vê-los confinados. Uma pálida lembrança me vem de Machado de Assis – O Alienista, era esse o nome? E não era quase disso que tratava Machado nesse livro, que li no ginásio? É, quando ainda existia ginásio.

Ao lembrar de Machado, lembro da indagação que perpassa o livro sobre que eram os loucos, se a minha memória estiver boa. A mesma pergunta que se pode fazer com as pessoas com deficiência. Nós não conseguimos aceitar com tranqüilidade as pessoas que tenham deficiência. De variadas maneiras, trata-se, nessa sociedade, de segregá-las. As escolas chamadas normais – públicas e privadas – não quiseram até hoje encontrar meios de ter os alunos com deficiência no meio dos normais. Os mais diversos ambientes tratam as pessoas com deficiência com receio, medo, sei lá, ou então agressivamente mesmo, como quem recusa o estranho. Quem são os normais, hein? Quem os anormais?

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