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Revolução Cubana chega aos 50 com vários desafios

Sempre fui um admirador da Revolução Cubana. Não poucas vezes encontrei-me no Brasil com dirigentes do Partido Comunista de Cuba e do próprio governo da Ilha. Só agora, final de 2007, início de 2008, passados quase 50 anos desde que os barbudos de Sierra Maestra assumiram o poder, é que visitei Havana, e apenas Havana. Bela Havana, uma cidade que guarda a majestade do passado, e que nos oferece o passado não só na sua impressionante arquitetura, mas também no singular desfile de carros dos anos 30, 40, 50, 60 – automóveis, caminhões e caminhonetes que não temos mais chance de ver no Brasil, salvo na mão de colecionadores.
Conversei com jornalistas, com pelo menos um dirigente do Partido Comunista de Cuba, o amigo e companheiro Jorge Ferreira, com gente do povo. É uma teimosa revolução, essa. Sobrevive a tudo e a todos. Reflito sobre essa sobrevivência. Claro que os analistas mais afeitos à teoria leninista hão de creditá-la à correta direção do Partido Comunista de Cuba. E talvez tenham um tanto de razão. Outros, mais sintonizados com a teoria da luta de massas, quem sabe leitores de Rosa Luxemburgo, atribuirão tal sobrevivência à disposição de luta, à determinação do povo cubano. E não lhes faltará também um outro tanto de razão.

Eu, no entanto, creio que é necessário analisar o papel do indivíduo na história – aqui vou a Plekhanov, até quem sabe para contrariá-lo. É que penso que sem Fidel Castro, sem sua determinação, obstinação, firmeza, sem a intransigência em aspectos centrais da Revolução provavelmente ela não teria conseguido suportar o volume de pressões dos EUA e mesmo a força de tantas conjunturas profundamente adversas, inclusive aquela, do início dos anos 90, quando o socialismo real desabou, incluindo a URSS.

Essa noção firmou-se em mim ao ler o impressionante Cien horas con Fidel, de Ignacio Ramonet, (Oficina de Publicaciones del Consejo de Estado/2006), uma entrevista de mais de 800 páginas do comandante. Quem quiser conhecê-lo pelas lentes dele próprio, por suas próprias palavras, que trate de ler o excelente trabalho de Ramonet. Jornalista sabe que entrevista não é coisa simples, ao contrário do que pode parecer aos menos avisados. Ramonet pesquisou profundamente a vida de Fidel, a história da Revolução Cubana e todos os aspectos considerados constrangedores para Fidel e fez um primoroso e rigoroso trabalho.

Fidel plasmou aquela revolução e foi absolutamente essencial à sua continuidade e sobrevivência. Cuba, olhada do ângulo de suas possibilidades, de suas forças produtivas, seu potencial econômico, tudo isso, não poderia ter levado à frente uma revolução socialista, ao menos se observados alguns critérios clássicos do marxismo. Ela é, de alguma maneira, e aqui vou a Gramsci, uma revolução contra o Capital, que foi a maneira como o comunista italiano referiu-se à revolução russa.

Quero dizer que o aspecto subjetivo, a vontade revolucionária suplantou todos os demais obstáculos para garantir, primeiro, que a Revolução se fizesse, e segundo que se mantivesse durante tanto tempo, mesmo depois que o grande farol socialista foi ao chão. E o fator Fidel, a enormidade de sua presença histórica contaram de modo absolutamente essencial, sem que se desprezem outros fatores. Fidel, com sua capacidade dirigente, não permitiu que Cuba embarcasse em cantos de sereia muito atraentes, nunca admitiu qualquer rendição à lógica voraz do capitalismo e nem à violência do cerco econômico dos EUA, sob todos os títulos um cerco absolutamente criminoso.

Com isso não estou querendo vaticinar qualquer desastre quando Fidel desaparecer. Ele próprio insiste que Cuba conseguiu formar um punhado de dirigentes capazes de manter viva a chama da Revolução. Mas, me parece inegável a essencialidade de seu papel na sobrevivência daquela experiência.

Há um aspecto que me impressiona positivamente: a natureza quase espartana dos dirigentes cubanos. Jorge Ferreira, do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba, coordenador da América, a quem conheço desde o início dos anos 90, foi me buscar no hotel Cohiba Meliá num Lada de mais de duas décadas de uso.

Os dirigentes cubanos não ostentam. Respeitam as dificuldades do povo. Há um inegável rigor ético. Os que incorrem em crimes de corrupção ou desvios éticos de quaisquer espécies são punidos de modo severo, e houve caso de condenação à morte, como o de Ochoa, figura histórica da revolução que se envolveu com o Cartel de Medellín – essa, pelo menos, é a versão dos relatos que conheci até hoje. Eles não transigem quanto a isso. Ramonet, para não deixar passar isso em branco, no seu Cien horas com Fidel, o questiona muitas vezes quanto à pena de morte. Fidel diz que há casos que não se pode admitir, ainda, outra saída.

Creio, no entanto, que a Revolução terá que dar respostas rápidas a uma, chamemos assim, demanda reprimida da sociedade cubana. Quem sabe deverá espelhar-se, em alguns aspectos ao menos, no que os chineses estão fazendo para enfrentar o dilema do desenvolvimento de suas forças produtivas. Quem sabe, os dirigentes cubanos deverão pensar numa espécie de Nova Política Econômica (NEP), que Lênin viu-se obrigado a implementar no início dos anos 20, quando viu que as forças produtivas não se desenvolviam como deveriam. Conferiu algum papel ao mercado, então.

Há um óbvio engessamento econômico em Cuba. Não se permitem, ainda, como seria necessário, nem o desenvolvimento das pequenas iniciativas. Ou, para dizer de modo mais rigoroso, há um elenco grande de proibições. Não há estímulo a empreendimentos individuais, não há espaço para isso. O próprio Raul Castro, em dezembro, na Assembléia Nacional, criticou o grande elenco de proibições, e disse que aos poucos elas deverão ser abolidas. Quem sabe, com isso se pretenda liberar parcelas das atividades econômicas à lógica do mercado, sem que o Estado perca o controle das áreas essenciais.

Há quem se assuste com a situação. Percebi isso. Há quem diga que há urgência na adoção de medidas liberalizantes. Há quem veja acentuadas insatisfações no povo. O próprio Fidel, no livro do Ramonet, afirma que a pequena corrupção tem crescido. E os analistas mais rigorosos, e aqui estou falando somente dos que estão ao lado da Revolução, dizem que isso acontece por conta das proibições excessivas. A prostituição cresceu como decorrência do turismo, cresceu a ilegalidade em vários setores, cresceu o que os dirigentes cubanos chamam de indisciplina laboral.

No final de 2005, todos os integrantes do Comitê Central foram trabalhar nas empresas para conhecer melhor e combater o fenômeno da indisciplina no trabalho e, também, a corrupção nas empresas. Como decorrência disso, foram substituídos mais de 10 mil administradores das unidades empresariais do Estado e, também, muitos dirigentes do Partido Comunista. E foram substituídos pela indiferença com que vinham tratando esses problemas e pela falta de controle das empresas.

O Partido Comunista considera-se atento aos problemas. Há, em Cuba, no entanto, os que dizem que o partido não está suficientemente alerta para a urgência de mudanças que liberem parcialmente a economia, única maneira de evitar o alastramento da corrupção entre os de baixo – desvio de gasolina, de material de construção, de produtos agrícolas, só para dar alguns exemplos. Este ano, pelo simbolismo dele, por ser o ano do cinqüentenário, pode ser um marco. Raul Castro, já o disse, tem manifestado disposição para provocar mudanças. A ver.

Os que, como eu, continuam a defender que um outro mundo é possível, que algum tipo de sociedade socialista continua a ser meta da humanidade, torcem pelo sucesso da Revolução Cubana, aquela que animou os nossos sonhos de juventude. E torcem para que ela consiga enfrentar os desafios que tem à frente, que seja capaz de, sem perder o norte socialista, adotar medidas capazes de dar mais vitalidade econômica ao país, melhores condições de vida aos trabalhadores, e continuar as suas extraordinárias experiências na educação e na saúde, para lembrar duas áreas plenas de êxito da Revolução. Sonhar, nós queremos continuar a sonhar e a lutar pelos nossos sonhos.

E a continuidade da Revolução Cubana, transformando-se para sobreviver, é absolutamente fundamental para que possamos continuar a pensar que há outro caminho a seguir que não o da exploração do homem pelo homem.

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