Esquerda, fins e meios | Por Emiliano José

Sem teoria revolucionária, não há prática revolucionária. O axioma é antigo, tem coisa de quase um século, vem de Lênin, e continua atual. É dele que parto para falar da herança stalinista, de que a maioria dos partidos de esquerda no Brasil não se livraram. São muitas as marcas teórico-práticas deixadas pelo modelo autoritário, centralizador que Stalin impôs na União Soviética, onde implantou um regime de terror e onde se praticou um autêntico genocídio. Nem sua morte, nem o Relatório Kruschev de 1956 foram capazes de condenar ao museu da História as idéias que ele executou por mais de duas décadas na antiga URSS.

Claro que ao falar dessa herança temos de convir que ela é levada adiante de modo dialético: juntam-se as idéias stalinistas com as práticas burguesas mais abomináveis. Temos assim uma espécie de imbróglio contemporâneo da fórmula os fins justificam os meios, de que Stalin tanto gostava ou que tanto praticava. Essa junção leva a que muitos, nos partidos de esquerda, acreditem sempre estar certos, não lhes importando quais os meios de que se valham para atingir seus objetivos. Defendem aparentes princípios de longo prazo, mas não pretendem respeitá-los no percurso histórico.

Stalin usou sempre o argumento da luta de classes para explicar todos os seus crimes e desmandos. Sempre elevava ao máximo a tensão, não queria a paz, não queria acordos. Fazia-os para desmanchá-los rapidamente, logo que considerasse que o aliado era dispensável. E aí os matava, política e literalmente, fuzilando-os. Hoje, muitos dos que o seguem, sem o dizer que o fazem, agem da mesma maneira. Só não podem fuzilar, pela impossibilidade legal, pela vigência da vida democrática. Uma herança cultural não é fácil de ser extirpada. Não por acaso, Gramsci juntou cultura e política. Não por acaso, sempre defendeu que só há revolução quando se muda a cultura dos povos.

A idéia da democracia como valor universal, a valorização da diversidade, o respeito aos adversários internos, a prática da convivência entre pensamentos convergentes, mas não necessariamente iguais, a valorização da política como anteposição à barbárie – e aqui recolho mais as lições de uma Hannah Arendt – estão ainda muito distantes dos que, nos partidos de esquerda, ainda cultivam idéias stalinistas. Há uma longa luta pela frente até que consigamos fazer valer a idéia de que os fins têm que ser compatibilizados com os meios e que a democracia não pode ser apenas um adereço instrumental em nossa prática política.

Já se comprovou, com a experimentação soviética sob Stalin, que a política se encerra quando se exercita a elevação da tensão ao paroxismo, quando se tenta ver nos companheiros os mais terríveis adversários. A política foi pensada para a convivência, para viabilizar a civilização, sem que isso elimine os conflitos, sem que se extinga a luta de classes, tão real. A sociedade não optará pelos projetos da esquerda se ela própria não for capaz de fazer a sua revolução cultural, se ela não tiver condições de optar seriamente pelo caminho da democracia para fazer as sonhadas transformações pelas quais lutamos durante nossas vidas.

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