Entre Grades

Hoje eu acordei com uma vontade imensa de pular a janela e absorver, com muito gozo a brisa, ainda muito úmida, da manhã que acaba de nascer; aquecer a minha face com os raios do sol, respirando aquele maravilhoso ar puro, leve e perfumado pelas flores dos campos. Gostaria de possuir – como diz Alceu Valença – “um espelho cristalino que alumia a luz do sol” e nele ver refletido as cores ilimitadamente belas, vibrantes e acordadas do arco-íris ornando a minha face. Observar o esfuziante e tremeluzido brilho das estrelas, semeadas por Deus, neste vasto universo, para, com seu faiscar, embelezar nossas noites e examinar, secretamente, com minha alma gêmea em meus braços, o vasto brilho da lua que no céu, todas as noites, nos proporciona uma paisagem digna de Eros, nos estimulando à entrega total dos nossos corpos e de nossas almas.

Abro os olhos e tento realizar o meu sonho, mas não consigo. Sou impedido pelas “grades das janelas e das portas”, não só do meu quarto como de toda casa. Percebo que as residências foram transformadas em prisões para extirpar a liberdade de inocentes filhos de Deus, abandonados e entregue ao descaso por “alguém de direito”, enquanto “eles” – os delinqüentes – ficam “soltos”. As grades nos protegem cerceando a nossa liberdade, nos impedindo de sair. Mesmo assim, contrariando a todas elas, resolvo dar um giro pela cidade.

A poucos metros, em minha perigosa caminhada – digo perigosa, porque posso ser assaltado e esfaqueado a qualquer momento – ouço gritos histéricos e irritadiços. Apresso o passo e me deparo com uma mulher que, brutalmente, teve a bolsa arrancada das suas mãos, por um desses meliantes que, por não estar “atrás das grades”, pratica toda espécie de delito e nos provoca todo tipo de tortura psicológica, pressão, repressão, depressão, acuados em nossas jaulas domésticas, quase sem a mínima possibilidade de sairmos, ou fugirmos dessa situação caótica. Corro fugindo e deixando para trás, aquele quadro negativo e de difícil solução, quando volto a escutar gritinhos agudos e frenéticos, vindos de outra via urbana. Curvo na próxima esquina, a fim de descobrir o que estava ocorrendo e me deparo com uma passeata gay.

Jogando confetes e serpentinas, cheirando e fumando, bebendo, zoando e bailando e movendo-se em diversos sentidos, produzindo uma coreografia esquisita sob um som a todo volume, em cima de um trio-eletrico, entram em confronto com Judeus Ortodoxos com sua suprema corte rabínica, sendo necessária a presença do pelotão de policiais que, armados de cassetetes, e bombas de efeito moral, não consegue conter as investidas dos seguidores do Judaísmo, em um embate furioso, causando uma exagerada confusão contra o exótico grupo.

Volto-me, em um giro de cento e oitenta graus, continuando a minha caminhada sinistra e vejo, na próxima esquina, garotos cheirando cola. Na porta das escolas, os emissários dos traficantes tentam induzir jovens ao vicio das drogas. A alguns metros, adolescentes vendem seu corpo para turistas em troca de algum dinheiro, crianças carentes sofrem todo tipo de aliciamento, abusos sexuais e até estupros, inclusive protagonizados por seus pais.

Cabisbaixo, volto para casa. Ainda muito chocado, mesmo já tendo se passado algumas horas da minha trágica caminhada, fico a me perguntar para aonde foram os valores éticos e morais que possuíamos? Por que houve essa estúpida regressão de valores e de direitos? De quem é a culpa deste retrocesso? Quem irá nos devolver os raios do sol, o brilho das estrelas, os respingos frios das gotas da chuva? Quem irá derrubar as grades que tiram a nossa liberdade, o nosso sagrado direito de ir e vir? Passo a achar que Ruy Barbosa tinha razão quando disse que: “no futuro o homem terá vergonha de ser honesto”.

A família – assim como todas as instituições – os princípios éticos e morais, a cada dia que passa, tendem a valer menos, declinando para nada valerem. Vivemos em um mundo onde a aparência é o que mais conta. Os valores depositados nas contas bancárias passaram a significar mais do que todos e quaisquer princípios, ditando as regras da atual sociedade. A maioria das pessoas passou a viver em função de um “status” edificado sobre um mar de corrupção, desmandos, negociatas, acordões… falcatruas, a fim de conseguir essa “posição” tão desejada.

Infeliz e por trás das grades que me cerceiam, tirando uma das melhores coisas que nos foi dada por Deus – a Liberdade – choro ao concluir que não podemos usufruir, de forma absoluta, as coisas belas que nos foram dadas pelo Criador.

Alberto Peixoto

www.albertopeixoto.com.br
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Sobre o autor

Alberto Peixoto
Antonio Alberto de Oliveira Peixoto, nasceu em Feira de Santana, em 3 de setembro de 1950, é Bacharel em Administração de Empresas pela UNIFACS, e funcionário público lotado na Secretaria da Fazenda do Estado da Bahia, atua como articulista do Jornal Grande Bahia, escrevendo semanalmente, é escritor e tem entre as obras publicadas os livros de contos: 'Estórias que Deus Duvida', 'O Enterro da Sogra, 'Único Espermatozoide', 'Dasdores a Difícil Vida Fácil', participou da coletânea 'Bahia de Todos em Contos', Vol. III, através da editora Òmnira. Também atua incentivador da cultura nordestina, sendo conselheiro da Fundação Òmnira de Assistência Cultural e Comunitária, realizando atividades em favor de comunidades carentes de Salvador, Feira de Santana e Santo Antonio de Jesus. É Membro da Academia de Letras do Recôncavo (ALER), ocupando a cadeira de número 26. E-mail para contato: [email protected] Saiba mais sobre o autor visitando o endereço eletrônico http://www.albertopeixoto.com.br.