Imprensa nacional e cães de guarda | Por Emiliano José

Tenho reiterado que os meios de comunicação não têm condições, eles próprios, de contar a sua história. Vindo deles, qualquer relato sobre a trajetória de cada um sempre será uma versão edulcorada, adaptada às circunstâncias e conjuntura política do momento.

Não custa relembrar reflexão de Mino Carta sobre não haver história de jornais e jornalistas “que mantenha um razoável apego à realidade”. Os livros Cães de Guarda – Jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988 e Um jornal assassinado – A última batalha do Correio da Manhã são uma demonstração disso, sobretudo o primeiro, de Beatriz Kushnir, que aborda a trajetória da Folha da Tarde, do grupo Folha da Manhã, o mesmo da Folha de S. Paulo.

O livro de Beatriz pretende esmiuçar a relação dos jornalistas com os censores, cobrindo o período 1968 – 1988, e faz isso de modo primoroso. Mas, vai muito além, realizando um autêntico estudo sobre a imprensa no período, abordando as complexas relações entre o jornalismo e o poder ditatorial, particularmente aquelas que envolveram a Folha da Tarde que, depois de renascer, em 1967, como um projeto ousado e progressista, tornou-se uma espécie de porta-voz da ditadura e abrigo de policiais ligados à repressão política. É um livro impressionante, e verdadeiro.

Instrumentos dóceis – São poucos os estudos que metem o dedo na ferida das mazelas da imprensa brasileira. Dizer que os barões da mídia brasileira foram artífices da ditadura militar, que articularam o golpe lado a lado com os militares, soa como heresia, como atentado à história oficial da própria imprensa, que sempre se quer como defensora das liberdades e da democracia. O golpe de 1964 e a imprensa brasileira têm tudo a ver, e o livro de Beatriz, pelo ângulo daquilo que se conta sobre o jornalismo, poderia parecer cruel, embora não seja mais do que uma análise cuidadosa, resultado de tese de doutoramento da autora na Unicamp, em 2001.

O livro trata, como diz Stella Bresciani no prefácio, de pessoas que se tornaram dóceis instrumentos do poder que não admitia nem a crítica nem a discordância. De alguma forma, e sigo ainda o raciocínio de Stella, trata-se, sobretudo, de uma tentativa, bem sucedida, de desmistificar a idéia, difundida com insistência, de que os jornalistas, em bloco, combateram o arbítrio. Não é verdadeiro. Havia jornalistas ao lado da ditadura, colaboracionistas, ou, como prefere a autora, cães de guarda. Não há nenhuma atitude panfletária, no entanto. E talvez caiba dizer que o surgimento dos cães de guarda decorre da específica situação política, da ditadura, embora isso não possa descupá-los. Compreender não é perdoar, e isso é Stella outra vez, lembrando Hannah Arendt.

A Folha da Tarde nasce em 1949, interrompe sua circulação em 1959, volta a circular em outubro de 1967 e é extinta em 1999. Entre 1967 e julho de 1969 foi uma experiência progressista, de resistência à ditadura. Daí em diante, até o fim da ditadura, ficou conhecido como o jornal de “maior tiragem”, não pelo número de exemplares vendidos, mas pelo número de tiras que a redação reunia, jornalistas inteiramente comprometidos com a ditadura militar. Tudo isso é analisado com maestria por Beatriz e por isso creio um livro indispensável para quem quer conhecer a imprensa brasileira para além dos lugares-comuns com que nos acostumamos.

O livro de Jéferson de Andrade já não guarda as mesmas riquezas. O Correio da Manhã é visto de modo benevolente. E trata-se de uma história densa e longa, que merecia mais cuidados. Nascido no início do século XX finaliza sua existência em meados da década de 70. Viveu o paradoxo trágico de ter apoiado o surgimento da ditadura para depois se colocar contra ela. O livro não dá conta dessa complexidade, das oscilações experimentadas pelo jornal. Sua atitude de combate à ditadura custou caro, mas é impressionante observar as manchetes panfletárias imediatamente anteriores a março de 1964, nitidamente favoráveis à atuação golpista. A burguesia, diria Marx, clama pela espada para repor a ordem que lhe interessa. Só que depois a espada volta-se contra qualquer um que se coloque à sua frente. A imprensa brasileira foi vítima dessa armadilha, embora seja incapaz de reconhecer isso.

*Por Emiliano José é professor aposentado da Faculdade de Comunicação (FACOM) da Universidade Federal da Bahia (UFBA. Em 1999, defendeu a tese “A Constituição de 1988, as reformas e o jornalismo de campanha”, tornando-se doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas. Começou a carreira jornalística na Tribuna da Bahia, passou pelo Jornal da Bahia, O Estado de S. Paulo, O Globo, e pelas revistas Afinal e Visão. Foi um ativo integrante da imprensa alternativa nos tempos da ditadura.

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