A outra margem do rio | Por Emiliano José

A questão da cultura no Brasil é a mesma da maioria dos brasileiros: a da inclusão, a da participação da cidadania, a da inversão de posições. Trata-se de romper a visão senhorial, oligárquica da Casa Grande. Trata-se de acabar com o patrimonialismo. Com o paternalismo. Com a idéia de que tudo nasce de cima. De que a criação cultural é apenas a que nasce dos pretensamente eruditos, dos letrados. E estes, tão bondosos, tão cientes de sua missão paternal, distribuem o que criam aos que, na platéia, observam extasiados.

A política cultural tem mudado no Brasil, sob o governo Lula. Gilberto Gil, esse extraordinário criador, tem se revelado um notável dirigente de uma nova política cultural. Ou melhor, é com a atual direção do Ministério da Cultura que se pode dizer esteja em andamento a constituição efetiva de uma política cultural em todo o Brasil, sem que se desconheça, por obviedade, que há um longo caminho a percorrer.

Não por acaso, o elenco dos privilegiados, os que se acostumaram às benesses de antes, se levantaram contra Gil em diversos momentos. Não aceitam a constituição de um Sistema Nacional de Cultura, que implica participação popular ampla, a partir do qual o público prioritário passa a ser a sociedade brasileira e não os criadores. E estes, os criadores, nascem, também, do próprio povo. Às vezes se esquecem de que o povo é o elemento fundamental na inspiração dos talentos especiais que aparecem nas diversas artes, embora, como se sabe, cultura, num sentido antropológico, vá muito além das artes.

Por acaso seria diferente na Bahia? Por acaso uma mudança de política iria significar o silêncio de tantos que se acostumaram a uma situação onde se destacava a existência de um clube seleto de privilegiados escolhido pelo esquema político anterior? Lembro-me do escândalo de 101 milhões de reais, no governo anterior, amplamente divulgado por este jornal. É, isso mesmo, dinheiro da Cultura, se é possível denominar como Cultura algo feito daquela maneira, com aqueles procedimentos, e onde entrava até Cesta do Povo. Era fundamental mudar em profundidade aquele esquema de privilégios ou não? Sem dúvida. O povo da Bahia cobrou essa mudança.

Começou a mudar. Ampliou-se o conceito de cultura. Alargou-se a noção de participação. Maiores são os poderes do povo. Quanta capacidade de criação tem este povo baiano, todo ele.

A Secretaria de Cultura do Estado, para além do barulho midiático deste ou daquele, conseguiu reunir, em conferências realizadas por todo o Estado, mais de 30 mil entusiasmados criadores culturais, a revelar a diversidade, a riqueza da produção cultural da Bahia. A nova política está muito distante de qualquer atitude excludente, que pretenda desonrar quaisquer dos nossos grandes escritores ou de nossos museus. O que ela quer é chegar à outra margem do rio. E chegará. Contra a visão anterior, completamente excludente, concentradora, elitista, patrimonialista e avessa a quaisquer tipo de política que propiciasse a manifestação da extraordinária riqueza cultural do povo baiano. Viva o povo brasileiro. Viva o povo da Bahia.

*Por Emiliano José é professor aposentado da Faculdade de Comunicação (FACOM) da Universidade Federal da Bahia (UFBA. Em 1999, defendeu a tese “A Constituição de 1988, as reformas e o jornalismo de campanha”, tornando-se doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas. Começou a carreira jornalística na Tribuna da Bahia, passou pelo Jornal da Bahia, O Estado de S. Paulo, O Globo, e pelas revistas Afinal e Visão. Foi um ativo integrante da imprensa alternativa nos tempos da ditadura.

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