O talento em tempos de cólera | Por Emiliano José

Sempre cultivei uma inveja danada dos escritores. Daqueles seres que conseguem traduzir o mundo em seus personagens. Quando a gente os lê, parece que não há nada mais simples. Você, que acha isso, tente. Não há nada mais difícil do que esse mistério do escrever inventando gente, decifrando o mundo.

Mas, o curioso é que eles não inventam. São pessoas iluminadas, capazes de apreender a humanidade de um modo diverso, muito diferente da apreensão feita pelos mortais.

Não inventam. Falam da humanidade contando histórias fantásticas. Histórias ouvidas na infância. Contadas pelas crianças. Ou pelas avós. Ou pelos boiadeiros. Traduzindo essas falas, reinventando-as, poetizando-as sob a ficção ou sob a poesia mesmo. Ou alguém duvida de que a criação de um Guimarães Rosa tenha nascido das falas ouvidas nas noites de lua das Gerais de Minas? Que um Graciliano não tenha se inspirado nos falares nordestinos para criar Fabiano ou Sinhá Vitória?

Gabriel García Márquez é um desses seres agraciados pelos deuses. Ou pelos demônios que povoaram sua infância em Aracataca, na Colômbia, de onde surgiu para assombrar e encantar o mundo há 80 anos.

Quem sabe tenha sido ali, criado pelos avós até os 8 anos, que tenha frutificado todo o seu inigualável talento, um talento povoado pelos medos e superstições da avó e as memórias guerreiras do avô.

Interessante descobrir como ele acreditou ser possível um dia ser escritor. A avó? Quase, mas não exatamente ela, que povoou sua mente com aquele mundo ancestral. Foi Kafka, este que alguns desavisados costumam rotular de um escritor difícil. Kafka, em alemão, revelou ele um dia, contava as coisas da mesma maneira que minha avó. Quando, aos 17 anos, leu A Metamorfose viu-se um escritor. Juntos, sua avó Tranquilina e Kafka fizeram-no esse patrimônio literário mundial.

Há momentos em que eu acho que os títulos de Gabriel García Márquez, apenas eles, mereceriam estudos à parte, pela capacidade que têm de traduzir um Continente. Ninguém escreve ao coronel nessa má hora, em meio a esses cem anos de solidão, para falar da crônica de uma morte anunciada, e precisamente quando o general está em seu labirinto. Tudo isso vem de títulos de seus livros, maravilhosos livros, o maior dos quais Cem anos de solidão, e o último, Memória de minhas putas tristes.

E há os que pensam que os escritores nascem prontos. Não nascem. Trabalham muito. Lêem muito. Escrevem muito. Alguns passam pelo jornalismo como Gabriel García Márquez o fez de modo intenso.

Ele foi uma bênção para essa sofrida América Latina. Com ele, foi possível perceber não só a miséria, como os sonhos. A magia pode nascer do povo. Dele é que vieram tantos amores, tantas dores, tantas viagens por esse Continente de tanto amor em tempos de cólera. Longa vida para Gabriel García Márquez.

*Por Emiliano José é professor aposentado da Faculdade de Comunicação (FACOM) da Universidade Federal da Bahia (UFBA. Em 1999, defendeu a tese “A Constituição de 1988, as reformas e o jornalismo de campanha”, tornando-se doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas. Começou a carreira jornalística na Tribuna da Bahia, passou pelo Jornal da Bahia, O Estado de S. Paulo, O Globo, e pelas revistas Afinal e Visão. Foi um ativo integrante da imprensa alternativa nos tempos da ditadura.

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