Carisma, coragem e dignidade | Por Emiliano José

Entre os dias 19 e 20 de setembro de 2007, o Departamento de Ciências Humanas e Filosofia da Universidade Estadual de Feira de Santana, teve a sabedoria de homenagear Francisco Pinto com o seminário “Chico Pinto – democracia e ditadura em Feira de Santana e no Brasil”. Visitei-o recentemente, um dia depois de ter participado de uma das mesas do seminário, ao lado de Élquisson Soares, Pedral Sampaio, Haroldo Lima e Rocha Martinez. Acamado, mas com a voz firme e o pensamento claro, conversamos durante um bom tempo. Tive a satisfação de ver os olhos de Chico Pinto brilhando, ao rememorar episódios de sua intensa participação política. No seminário, desenvolvi algumas idéias sobre a sua atuação política. Destaquei aquilo que considero algumas marcas essenciais de sua atuação. A primeira delas, a coragem. Pinto compreendeu como poucos o dito de Hannah Arendt: a principal virtude do político é a coragem. Não a coragem da bravata, da disposição para o desforço físico, mas a que sabe levar à frente suas convicções sem medo. É provável que Pinto, como Marighella, possa repetir: não tive tempo para ter medo.

A segunda foi sua absoluta disposição e clareza no combate à ditadura. Compreendeu cedo o caráter odioso do regime que se iniciou em 1964. E colocou toda sua inteligência, todos os seus esforços a serviço da luta contra a ditadura militar. Seus mandatos se desenvolviam exclusivamente nessa perspectiva. Como decorrência disso, nunca fez dos mandatos um fim em si.

Se fosse necessário colocá-los em risco para enfrentar os militares, não vacilava. Ia a campo, mesmo que às vezes suas posições parecessem excessivamente radicais, mesmo que se assemelhasse, para alguns, a uma espécie de Cavaleiro Andante, versão contemporânea de D. Quixote. Foi preso por denunciar Pinochet – e o fez na posse de Ernesto Geisel em 1974. Profeta, chegou a dizer que o assassino pagaria em vida pelo que fez. Por isso, foi condenado a seis meses de prisão. E não pôde concorrer às eleições daquele ano para deputado federal. Quando o ditador anunciou que iria indultá-lo, previamente recusou. Não aceitaria nenhum favor da ditadura.

A terceira de suas marcas era a profunda identificação com o povo. Feira de Santana e o povo da Bahia tinham por Pinto uma imensa admiração. Em Feira, particularmente, era indescritível a paixão com que o povo o tratava. Os comícios de que participava era um delírio. O povo sabe a quem chama de líder. E quanto se dizia Pinto vem aí, a população, especialmente os mais carentes, surgiram de todos os cantos, de todas as ruelas, de todas as periferias, daqui e dali e de todo lugar que se tinha pra partir, para ver o seu líder. O povo queria tocá-lo, abraçá-lo, e depois ouvi-lo. Claro que isso era resultado de um carisma muito especial que Pinto tem. Carisma é algo que não se inventa. Mas, carisma é também resultado de uma específica construção. Ele foi vereador, foi prefeito, deputado federal várias vezes. Deixou marcas que a população percebeu. Ele foi encontrando um lugar no coração do povo por suas atitudes, pelo que fez por Feira de Santana, pela opção que fez pelos pobres, pela defesa dos oprimidos na luta contra a ditadura, pelos riscos que correu para defender os perseguidos pelo regime militar.

Essa identificação, assim, era resultado de outra marca: a absoluta convicção que tinha de que sem participação popular a democracia não se completa. A administração dele, em 1963 e parte de 1964, antecipou políticas de participação popular e inclusive o orçamento participativo. Quero dizer de meu orgulho em ser companheiro de viagem desse extraordinário lutador. Homens como Chico Pinto dão dignidade à política.

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