Cangaceiros | Por Emiliano José

Há poucos dias, ao informar que lia este livro, ouvi a pergunta: Lampião foi herói ou bandido? Esta dúvida certamente assalta muita gente, especialmente porque uma tradição eivada de misticismo, ou marcada pela simplificação teórica, sustentou durante muito tempo a tese de um Lampião vingador dos pobres, uma espécie de Robin Hood nordestino. Ao fim da leitura, a tese estará definitivamente sepultada.

O leitor vai se deparar com um Lampião agiota, amigo de dezenas de latifundiários-coiteiros, violento, apreciador do bom uísque (White Horse, sim senhor), tranqüilamente aburguesado ao final da existência, e assim vem a morrer, descuidado, quando está acordando em Angico, verdadeira “cova de defunto” pela sua localização, como lhe alertara Corisco. Era 1938, 28 de julho, o dia do fim do bandoleiro-guerrilheiro que durante anos driblou e enfrentou as volantes por todo o Nordeste, evidenciando grandes qualidades de combatente.

Pouco tempo depois, 25 de maio de 1940, Corisco, o vingador de Lampião, viria a ser morto em Brotas de Macaúbas, próximo de onde, 31 anos mais tarde, morreria Carlos Lamarca, assassinado pela ditadura de Médici. E por falar em ditadura, Vargas e seu Estado Novo foram decisivos para a eliminação de Lampião. E jogou todo o peso para que fosse dado fim ao cangaceiro. O livro, no entanto, não se restringe a Lampião.

Trata-se de um estudo acurado. O autor constrói uma tipologia do cangaço, identificando as existências do cangaço-vingança, o cangaço-meio de vida e o cangaço-refúgio, todos auto-explicativos, considerando o penúltimo o mais constante. Faz paralelo com outros países, situações de banditismo sob condições de miséria e atraso, sem que consiga enxergar no cangaço quaisquer sinais de rebeldia contra o latifúndio.

Tão denso o trabalho, que merece prefácio elogioso de Gilberto Freyre. Considera o cangaço fenômeno típico do sertão nordestino, próprio do ciclo do gado, de um homem não submetido a relações assalariadas, aventureiro e individualista como decorrência da própria vida que levava, de suas relações de produção sob o ciclo do gado.

O cangaço aparece, assim, como um meio de ascensão social para uma juventude que no sertão tinha pouquíssimas condições de ascender. O autor transita entre a história, a antropologia, a sociologia e até a psicologia na análise dos cangaços nordestinos, e esse trânsito ousado entre tantas áreas do conhecimento, sem qualquer afetação, dá ao trabalho uma riqueza especial.

Identifica no cabra, no jagunço e no valentão os precursores do cangaceiro, todos eles personagens singulares não redutíveis um ao outro. O cabra, ligado emotivamente ao coronel. O valentão, espécie de cavaleiro andante nordestino. E o jagunço, vendedor de sua arma aos coronéis, sem qualquer ligação emotiva com seus contratadores. Curiosa e ousada é a tese do autor sobre a atração fatal do chefe-cangaceiro pela figura do coronel, ideal de vida de vários deles. Os grandes cangaceiros teriam sido verdadeiros coronéis sem terra, vivendo à margem de disciplinas e de patrões. Um livro para não ser ignorado, que chama ao debate e reclama contendores qualificados. Como o autor.

*Por Emiliano José é professor aposentado da Faculdade de Comunicação (FACOM) da Universidade Federal da Bahia (UFBA. Em 1999, defendeu a tese “A Constituição de 1988, as reformas e o jornalismo de campanha”, tornando-se doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas. Começou a carreira jornalística na Tribuna da Bahia, passou pelo Jornal da Bahia, O Estado de S. Paulo, O Globo, e pelas revistas Afinal e Visão. Foi um ativo integrante da imprensa alternativa nos tempos da ditadura.

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