Além do capital

Jacob Gorender parece ser uma espécie de intelectual em fase de extinção. Digo isso por sua natureza militante, por fazer parte do atualmente raro contingente dos intelectuais orgânicos, conceito desenvolvido por Gramsci para definir aqueles pensadores que têm lado, posições nítidas, preferência de classe, no caso dele as classes trabalhadoras. Foi um dos principais dirigentes do Partido Comunista Brasileiro (PCB), fundador do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) e é autor, entre tantos títulos, de O escravismo colonial, obra de referência quanto à nossa formação social, e de Combate nas trevas, texto essencial para quem quiser compreender a esquerda que se dedicou à luta armada na luta contra a ditadura militar iniciada em 1964.

Neste livro Marxismo sem Utopia desenvolve um raciocínio inovador, iconoclasta, ao discutir o conceito de utopia no sentido negativo, pretendendo opô-lo ao de ciência, e querendo fazer crer que até mesmo Marx e Engels, até certo ponto, viram-se prisioneiros de concepções utópicas ou, no mínimo, ficaram no meio do caminho entre a utopia e a ciência. A pretensão dele é fincar pé no território da ciência, combatendo as idéias utópicas, tal e qual o fizeram Marx e Engels em suas formulações centrais.

Gorender discutirá com rigor, na sua iconoclastia, a idéia do sujeito revolucionário, avançando a tese de que o proletariado, sacrossanto personagem das transformações revolucionárias segundo o pensamento marxista original, era e é ontologicamente reformista, ou seja, não estava disposto à revolução, como se quis fazer crer durante mais de século e meio.

Tanto é assim, segundo ele, que a idéia de revolução socialista só prosperou e triunfou em países de ampla predominância camponesa, em nações de nítida predominância agrária, onde o proletariado era uma classe numericamente pequena e socialmente débil.

Durante largo tempo – e essa é uma das heranças mais fortes do stalinismo –, os marxistas considerados mais puros, ou mais revolucionários, debitaram às traições de reformistas as atitudes da classe operária face à revolução – talvez aqui caiba lembrar, por exemplo, o proletariado alemão diante da turbulência do final da década de 20, quando Rosa Luxemburgo é assassinada. Gorender tem a coragem de dizer que as lideranças reformistas social-democratas foram produzidas mais, muito mais pela própria classe operária do que pela burguesia. E ele ressalta, no entanto, que a propensão ao reformismo não deve ser confundida com passividade, lembrando que as reformas, sob o capitalismo, foram conquistadas, muitas vezes, à custa de muito sangue.

Além do capital

Não se imagine que tais formulações carreguem qualquer carga de pessimismo face ao projeto revolucionário. Gorender acredita que o capitalismo se encontra hoje notavelmente amadurecido para a realização da transição socialista do que na primeira metade do século XX. Mas ele não imagina ser possível trabalhar com a perspectiva de uma “nova aventura bolchevique”.

Acredita ser necessário continuar a pensar a possibilidade de uma alternativa não-capitalista, de um avanço para além do capital. E fala-se em possibilidade porque ele trabalha com idéia da incerteza como aspecto integrante dos processos objetivos.

O sujeito histórico – a força social promotora da revolução socialista – deverá ser o bloco de assalariados, dirigido pelos assalariados intelectuais, segundo a visão de Gorender. Ele não crê que os movimentos sociais, com todos os êxitos que alcançaram, possam vir a ser o sujeito revolucionário. Tais movimentos, segundo a concepção dele, possuem composição classista heterogênea e objetivos circunscritos aos limites da sociedade burguesa.

Do bloco revolucionário de assalariados farão parte, sem dúvida, o proletariado industrial, hoje, no entanto, submetido a um processo intenso de redução quantitativa.

A ousadia de Gorender é a de propor que a força social dirigente da luta revolucionária não deva ser formada por excluídos, mas por incluídos no sistema.

Estes seriam os assalariados intelectuais, capazes de aglutinar em um só bloco revolucionário os assalariados manuais (o proletariado no seu significado tradicional), os trabalhadores autônomos (camponeses, prestadores de serviço e profissionais diversos), a pequena burguesia e os excluídos do sistema (desempregados estruturais, minorias discriminadas etc.). A tese rende muitas discussões, claro. É uma tentativa de responder ao problema do sujeito histórico, problema sem solução desde que desabou a idéia de um proletariado ontologicamente revolucionário.

Tentativa que, pôr um problema sem discuti-lo nos limites deste texto, guarda semelhança com a idéia leninista da revolução trazida de fora para dentro, com quadros dirigentes que levariam o sujeito proletário à consciência revolucionária.

Essencial, no livro, creio, é o conceito do socialismo como possibilidade, nunca como um fim imanente à sociedade e à sua história. Trata-se de um fim que homens e mulheres elaboram, sujeito a se realizar ou não. Um fim que estará sempre sujeito à indeterminação, dependente da luta dos próprios homens.

Aqui, outra vez, cabe lembrar Rosa Luxemburgo que, diante da hecatombe da Primeira Guerra Mundial, pôs o dilema “socialismo ou barbárie”.

Com isso, ela punha o socialismo como possibilidade, não como inevitabilidade. É o que Gorender tenta atualizar, pretendendo combater as ilusões utópicas e o determinismo mecanicista.

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